ENTREVISTA COM KAWAI SHIHAN

POR NAGAO SENSEI

YN: Qual a sua definição de AIKIDO?

KAWAI SHIHAN: Aikido é um Budo que visa vencer a si próprio e não aos outros. Esta é uma síntese de uma profunda filosofia desenvolvida pelo fundador Grão Mestre Ueshiba. Aikido, portanto, é algo além do Budo. Pode ser visto como uma filosofia de vida na qual a pessoa passe a viver em unidade e harmonia com a natureza, aceitando e respeitando as diferenças que existem entre as pessoas, sem impor idéias e princípios através da força. No Aikido existe também um princípio que considero de extrema importância: o respeito e gratidão que os filhos devem ter pelos pais ou que um aluno deve ter por seu mestre ou professor. Em japonês chamamos esse princípio de Giri Ninjo.

YN: Quando o senhor arremessa 30, 50 pessoas durante 40 minutos ou mais (Ju Wasa), sem demonstrar qualquer alteração respiratória, cansaço ou esforço aparente, como isso é possível?

KAWAI SHIHAN: O ser humano ao se colocar numa postura de muita força física aparenta ser forte, mas na realidade não é. Ao contrário, se feita a concentração Saika-Tanden (região logo abaixo do umbigo) ou Zen com a mente limpa e serena encontra-se uma situação de muita força. É dessa forma que no Ju Wasa passo uma hora ou mais arremessando pessoas e permaneço tranquilo sem ficar cansado. Isto não é difícil e, com treino, todos poderão fazê-lo.

YN: O que é o KI, tão falado no Aikido?

KAWAI SHIHAN: Realmente, é muito difícil de definir o KI em português. Na língua japonesa temos muitas palavras cuja essência está na sílaba KI, a mesma usada no Aikido. Kuuki (ar), Denki (luz), Tenki (tempo), Seiki (energia vital), Kibun (astral), Kishitsu (natureza do ser) e Kimoti (sentimento) entre tantas outras. Talvez a tradução mais próxima no português seja “energia”. A idéia é utilizarmos o KI e imaginá-lo como uma força que não seja a muscular.

YN: O Aikido teve como uma das bases as técnicas do Daito Ryu Aiki Ju Jutsu. Qual a diferença entre as duas artes?

KAWAI SHIHAN: O Mestre Takeda Sookaku, de quem o Mestre Morihei Ueshiba foi discípulo, ensinou o Daito Ryu Aiki Ju Jutsu, cuja essência era “vencer o adversário”. O fundador do Aikido ensinou que a essência do Budo deveria ser “vencer a si próprio”. Esta diferença fundamental de visão e de postura fez com que caminhassem em direções completamente opostas e o fruto das técnicas aprendidas somadas a uma nova base filosófica deu origem a uma nova arte chamada Aikido. É por isso que insisto: O Aikido não é somente uma questão de técnica, esta pode ser facilmente adquirida. O importante é fazer a ligação à filosofia.

YN: O Aikido pode ser visto como arte marcial, filosofia, terapia e esporte. Qual o sentido que o senhor atribui como sendo o principal?

KAWAI SHIHAN: Cada vez que me aprofundo nos estudos e práticas do Aikido, mais me convenço da filosofia desenvolvida pelo Mestre Morihei Ueshiba. Várias são as facetas que o Aikido apresenta. No meu caso específico, por eu ter nascido e sido criado durante a guerra e em decorrência dos problemas de saúde que tive, senti na própria pele o que é ser dominado e não poder reagir. Entendo que devemos fazer de nossos filhos, e das pessoas em geral, indivíduos com personalidade forte, que não se deixem submeter, que não se apavorem a toa e que possam viver bem e felizes nesse mundo conturbado. Acredito que o Aikido pode ajudar as pessoas nesse sentido.

YN: Além de Mestre em Aikido, os senhor também é Mestre em Medicina Oriental e vive da prática de acupuntura. Como foi esta escolha?

KAWAI SHIHAN: Como falei anteriormente, eu tive problemas de saúde durante a guerra. Um acidente com minhas pernas foi considerado um problema irreversível pelos médicos da época. Foi graças às sessões de acupuntura que voltei a caminhar e, assim, tornei-me discípulo do mestre que me deu condições de voltar a andar. Fui salvo, tive a oportunidade de aprender a arte dessa cura e entendo que devo ajudar pessoas que estejam necessitando de uma ajuda, assim como eu precisei.

YN: Em que sentido o Aikido pode ser considerado uma terapia?

KAWAI SHIHAN: Em muitos sentidos. Só pelo fato de alguém se tornar mais autoconfiante, já o liberta, em parte, do estresse e da ansiedade. Fisicamente, ao fazer-se o Ukemi (exercício de queda sem traumas), movimenta-se a coluna, o que melhora o funcionamento dos orgãos internos. O mesmo acontece com as manipulações das articulações (joelhos, pulsos, cotovelos, pescoço). Sem dúvida, o Aikido é uma bela terapia.

YN: De que maneira o Aikido é recomendado para crianças? Qual o sentido que deve nortear o ensinamento para crianças?

KAWAI SHIHAN: Em primeiro lugar, as crianças têm uma capacidade menor que a dos adultos para repetir determinadas ações durante muito tempo. As aulas para crianças devem ser mais dinâmicas e atraentes. A partir da mistura de técnica e brincadeiras, deve-se orientar as crianças na formação individual, desenvolver a capacidade de concentração, respeito pelos companheiros, professores e pais. Acredito que este conjunto fará das crianças pessoas sadias, seguras e equilibradas. Ao torná-las pessoas autoconfiantes e com personalidade própria, em muito irá ajudá-las a estarem livres de envolvimento com drogas. Só isso já terá valido a pena.

YN: Ao observarmos os vários Mestres e os vídeos enviados pelo Hombu Dojo, vemos que as técnicas são aplicadas com “suavidade”. Mesmo as suas técnicas vêm se suavizando. É uma tendência daqui pra frente?

KAWAI SHIHAN: A aplicação ou não de força é uma questão complexa. O Aikido tem um importante princípio que diz que as técnicas não são aprendidas para destruir. Significa que jamais devemos aplicar as técnicas visando causar danos, muito menos em parceiros. No geral, a tendência da orientação do Hombu Dojo é a de praticar as técnicas de maneira suave. Isto não exclui treinos específicos, feitos de modo vigoroso e não brutal. Trata-se também de uma questão de maturidade dos praticantes. Mesmo as técnicas do fundador sofreram alterações durante as várias épocas de sua vida, no que diz respeito ao vigor. Quanto mais jovem o praticante, mais vigorosa é a técnica.

YN: Isto significa que, nos tempos antigos, as técnicas eram aplicadas com mais vigor que nos tempos atuais? Existe alguma razão concreta para estas alterações?

KAWAI SHIHAN: Na época em que o Aikido surgiu, a regra do Budo era “quanto mais forte melhor”. Mesmo aqui, quando iniciei a prática do Aikido, recebia desafios de pessoas que praticavam outras artes marciais e tinha que estar preparado. Hoje, com o Aikido consolidado no seu devido contexto, não temos tido problemas desse tipo e, portanto, as orientações são outras. Pode-se dizer que hoje o mundo aceita como válido aquilo que diferenciou o Aikido do Daito Ryu Aiki Ju Jutsu.

Retirado do site Aikido Harmonia